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Das coincidĂȘncias divinas [Nov. 30th, 2009|01:23 am]


Há talvez três semanas que trago o Fúria Divina por perto. Leio habitualmente durante as viagens diárias – tempos mortos que a leitura sempre tem o condão de reanimar – mas os momentos partilhados com livros em transportes públicos têm sido escassos ultimamente. Para este livro, há que considerar factores de peso e volume, que assumem especial relevância em dias de frio e chuva; assim, na hora de decidir qual o último objecto com direito a entrar na mala (esse mundo imenso, quase infinito), aquelas 583 páginas têm amiúde ficado de fora. Este fim-de-semana acabei por dedicar-lhes a atenção devida. Ontem à tarde dei-lhes um bom avanço e à noite voltei a pegar no livro, subitamente desperta e entusiasmada com ideia de regressar à história. Li durante muito tempo, até a chuva parar e recomeçar a cair; até despertar a curiosidade do gato adormecido, que saltou para cima da cama e, antes de se enroscar ao meu colo, passou uma das patas pela página (como que se apercebendo que ali se passavam coisas importantes), e até me deixar vencer pelo cansaço. Hoje acordei a meio da manhã e, pouco depois, pus-me a ler. Só interrompi uma vez, quando o telefone tocou. Com a chegada da hora de almoço, eu ainda de pijama e a constatação que me faltavam pouco mais de 100 páginas para terminar, achei que era altura de fazer uma pausa. Fechei o livro e acendi a televisão, procurando dispersar a mente para outros mundos. Mas, para meu espanto, a figura do José Rodrigues dos Santos materializou-se no ecrã diante de mim. Por sua vez, diante dele, estava a sua mais recente obra, um exemplar semelhante ao que eu tinha ali mesmo ao lado! Claro que achei graça à coincidência e fiquei colada ao televisor a ouvir como é que ele entrou em contacto com um dos primeiros operacionais da Al-Qaeda que lhe reviu o livro, a par de outras considerações sobre a obra. Ao final da tarde, seguindo a minha vontade e os sinais que se me tinham apresentado, prossegui a leitura. Estou quase a acabar.

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The best is yet to come [Oct. 20th, 2009|11:46 am]


Depois desta manhã, vou repensar o uso da expressão “hoje não devia ter saído de casa”. Tudo corria bem até ao minuto quarenta e sete das nove da manhã. Neste instante, estando eu ironicamente já tão perto do meu destino, a força da chuva e da ventania assumiram uma tal violência que, passados quinze segundos, bom, mais valia ter levado com um balde de água em cima. Aquele breve e interminável compasso de espera pelo boneco verde foram um verdadeiro suplício, durante o qual levei um valente açoite de água, sem réplica possível e em tempo record, como já não havia memória. Ao atravessar a estrada, já parcialmente alagada (a estrada e eu, note-se), sacudida pelo vendaval chuvoso e com a “The best is yet to come” nos headphones, senti que a cena ganhava um cariz cinematográfico, ligeiramente surreal, portanto. Uma senhora passou por mim, abrindo caminho com o guarda-chuva, e atirou “Meu Deus, o que é isto!?”. Talvez um tufão do outro lado do mundo que passou por aqui para um breve olá – na verdade, este pensamento só me ocorreu momentos mais tarde, quando resolvi apear-me nas escadas de um banco. Lá, encostado à vidraça, encontrava-se já um senhor de meia idade. Alto, esguio, fumando cachimbo e exibindo uma certa classe, o seu ar solene poderia ser o de quem medita se os investimentos na bolsa irão compensar - ou talvez, simplesmente, o de quem admira o espectáculo natural inesperado, enquanto espera para poder retomar o seu giro matinal. Dirigiu-me algumas palavras, que se perderam no tumulto da tempestade antes de chegarem aos meus ouvidos, mas que, pela expressão facial, deduzi serem de complacência pelo meu ar de naufrágio e pelas minhas tentativas, algo cómicas (imagino!) de, com o meu chapéu-de-chuva já semi-destruído, ir tentando afastar os chuviscos que, pelo génio do vento, teimavam alcançar-me nas escadas; pouco depois, chegaram mais duas pessoas, e ainda outra e outra, que entraram directamente no banco, aguardando lá dentro que a intempérie passasse. Uma senhora passou em frente (sem chapéu), essa sim, encharcada no sentido mais completo possível do termo. Quando a chuva deu sinal de alguma trégua, lá me aventurei pelo passeio.
O Outono chegou, e em grande. Uma coisa é certa: foi um belo dia para estrear as botas.

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